segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Monet, luzes e ação



  O fim de tarde chega, de mansinho, prestes a refrescar a paisagem queimada pelos raios de sol enraivecidos de Verão. É ele que transforma o céu numa obra de arte, que contemplo como se visse a pureza do Universo a voltar a mim. Saio à rua finalmente e tento fixar, na minha difícil memória, a cor das nuvens que se descola daquele céu azul claro.
  Tento fixar a cor das nuvens porque só elas me trazem um pouco de calma, um pouco de paz aos meus dias de raiva, de ódio, de pânico, de gritos secos dados no meio da escuridão. Vejo-me a anoitecer (de que dia falo eu?) e estico o meu corpo ágil em direção àquelas cores que pairam no céu, como se elas conseguissem preencher este vazio, esta insatisfação, esta falta de me ser, esta raiva de tudo me martirizar. Quero dançar ao som do vento e tornar-me laranja ou então um vermelho cor de sangue, como aquela nuvem perto da torre. Quero sentir aquele azul a tombar para negro de que se reveste o céu pré-noturno. Quero mergulhar no tom esbranquiçado que aparece sei lá eu onde, sei lá eu porquê. Sei que quero entrar na profundidade do amarelo que vem talvez do sol que insiste em desiludir-me e dizer-me adeus. Quero ser estes rasgões de nuvens que se tornam roxos e púrpura. Quero que o sol me continue a bater na cara e que se espalhe pelas folhas das árvores a dourá-las para a câmara dos meus olhos.
  O meu corpo movimenta-se. Estica-se. Dança. Move-se. Entretém-se. O sol põe-se e eu ponho-me com ele também, a esquecer-me que existo. O cheiro da terra penetra no meu corpo suado e eu sinto que quero viajar para fora do que existe, porque o que há não basta nunca. As cores, as nuances, as luzes dizem-me para viver com elas. Dizem-me que tenho de as sentir, mexendo-me. Dizem-me que posso, enfim, ser livre, nem que seja por um instante. O meu cérebro esvazia-se e deixa-se entorpecer pelo cair da noite. O céu cobre-me e os rodopios não param. As mãos incessantes colhem folhas. As articulações dos dedos finos parecem cordas a ranger para o meio do ar.



  Esqueço, num momento, a raiva. A dor. O medo. A minha mente. Esqueço a morte dos dias, os pensamentos macabros, a falta de amor próprio, a minha condenação. Não tenho nada senão o pôr-do-sol. Não há nada que me alivie, que me tire, que me eleve, senão os tons do fim do dia. Não há nada que me traga sorte nem amor nem paz. Nada que me faça esquecer, porque nasci para me lembrar. E as lembranças sentem-se de uma maneira peculiar. Às vezes, de forma ténue; outras, de uma maneira tão acutilante, que sentimos uma faca a serrar a cabeça.
  Mas tudo passa. Tudo passa e estes ínfimos minutos passam também. Passam e voltam a deixar-me no cansaço. Há um cansaço provocado não sei bem porquê e que vem não sei eu bem de onde. Sei que não é só uma constante física, mas também um não sei quê psicológico. A minha cabeça estala de dores, grita para dentro enquanto os sorrisos e os clichés saem para fora. O meu corpo arqueja de raiva e de ansiedade por dentro. Por fora, tudo está bem. Por dentro, tudo se estilhaçou, partiu, foi. O vaso dos meus ideais caiu por terra. O cesto das minhas vontades voou com o vento. As flores da minha animação foram e não regressam. O cálice do otimismo não foi mais do que um lenitivo temporário.
  Tudo o que fui foi. Tudo o que sou não sei. Há horas em que o sol parece brilhar mais, em que os ventos parecem encaminhar-se na minha direção, em que tudo parece fazer sentido. São apenas horas. Nada dura; tudo se evapora. Estou verdadeiramente cansado. Falta-me algo que me dê o alento de outrora. Será que me contentei com as metades? Será que fiquei pelo “não é assim tão mau”? Conformei-me com a imperfeição? Ou terei desistido de tudo?
  Dizem que ninguém é quem queria ser. Não se aplica no meu caso. Sou-me até ao fim de tudo, seja da dor massacrante ou do amor entusiasmante, mas nunca pude ser alguém proveniente de outras telas. Não tenho pulsos rijos, mas, dentro de mim, há uma fortaleza de aço. Não me encaixo nas roupas dos outros, mas brilho no que desenhei para mim. Não nasci com as capacidades que vinham no pedido, mas tenho talentos que só eu sinto. Há quem me julgue uma flor, mas Monet nunca pediu pedras pesadas para os seus desenhos…

sábado, 5 de agosto de 2017


Apelo à Humanidade

  Sinto saudades de escrever. Sinto saudades porque só quando escrevo é que sinto, isto é, só quando escrevo é que sinto pura e verdadeiramente. É por isso que escrevo e talvez seja por isso que parto: preciso de fugir para sentir, para sentir uma espécie de acalmia ou de plenitude.
  Parto e entro na grande cidade, onde os prédios se erguem até ao céu ora em cores desmaiadas e mortas ora revestidos de ferro e de vidro brilhantes. Nesta cidade onde os bairros se desenham por contraste. Uns são belos, salutares, onde a classe média se enfia ao fim de um dia de trabalho, procurando o bem-estar há tanto desejado. Outros estão cheios de cores mortas, tanto nas casas como no chão. Bairros onde só se apinha gente que não tem outro sítio para se apinhar. Bairros ora sujos ora apenas degradados, onde tudo esmorece e a estética citadina procura novos contornos e definições.



  Sinto-me a percorrer estas grandes avenidas, a procurar conforto na zona da marginal, a deleitar-me nos museus onde se apresentam exposições e a alma refloresce, como os girassóis de Van Gogh. Ando como um forasteiro, “tourist”, que até em si é estrangeiro. Sento-me nos jardins onde reina o sossego e a verdura, contemplando o céu azul acinzentado que parece prometer chuva, mas só traz frescura. Penso observar, ao longe, um movimento incessante de carros que é controlado por esta estrutura de ferro, betão e pedra, de configuração arquitetónica futurista que rasga as subtilezas. Percorro galerias à procura de uma nova resposta – talvez seja como buscar novas questões – e não há nada. Vejo, mas não sei se vale a pena pensar. Talvez aqui não...
  Decido sair dali e entrar na velha baixa, onde a praça se abre para o rio, a estátua resplandece e os edifícios amarelos muram este terreiro. Sento-me a olhar para o rio e sei que tenho de te procurar. Algumas ruas acima, lá estás tu, sempre à espera que alguém se sente e converse contigo. Talvez queiras ouvir o que nunca ninguém te quis dizer, mas a tua sorte é pouca. A calçada negra onde o caos impera leva-me ao lado oposto, onde vejo um épico de outrora, quase a chegar aos céus, por mais pequena que a estátua seja.
  Volto, enfim, à célebre estação para chegar ao meu destino quotidiano. E, depois, vejo-me obrigado a sair e a entrar num outro autocarro que me há de transportar, queira eu ou não. Se a vida se resumisse a cumprir vontades, nunca ninguém estaria triste (ou a vida é uma regra de contrastes?).
  Os campos povoados de pinheiros, abetos, eucaliptos ou apenas de terra lavrada estendem-se até ao fim da minha visão do real. O sol desce até que a minha alma o reflita interiormente. A marcha do autocarro prossegue e eu tenho inexoravelmente de ir…
  Às vezes, acho que os campos nos salvam da tristeza de olhar. Acho que a luz do sol nos traz algo de novo e algo de único. Fazemos as viagens para chegarmos não a um destino, mas a um ideal ou a uma ambição. Fazemo-las para nos sermos ou para encontrarmos um lugar no qual nos sejamos de forma melhor. Seguimos, corremos, andamos e tudo porque há qualquer coisa de que precisamos, que falta, que sei lá! Os sítios são aquilo que aí vivemos e que aí sentimos. São o amor, o desespero, os gritos roucos na noite, o entusiasmo ou a tristeza. São a paz. Mas são, essencialmente, a humanidade. Toda ela. 


domingo, 2 de julho de 2017

Espírito de Verão


  A Memória de (me) Imaginar

  Pegar nos tachos, nas colheres e nos pratos. Agarrar uma cebola, picá-la bem picadinha para lhe sugar a essência minutos mais tarde. Selecionar a quantidade de massa necessária para o jantar. Colocar o tacho da massa ao lume, cheio de água e sal. Fazer um refugado com a cebola já cortada, adicionar azeite e polpa de tomate. Abrir a lata de atum à pressa, como se o tempo me fugisse das mãos, e fazer deslizar o conteúdo daquela lata para dentro do tacho onde o refugado prontamente o esperava.
  Acabar de cozer a massa. Sentir o vapor queimar-me as mãos e aquecer-me o espírito. Abrir a porta da varanda para deixar entrar o ar.
  Parar.
  E sentir o vento. O vento que me envolve e embala, enquanto a música me explode nos ouvidos e sinto as minhas pernas a dançar enquanto vou tratando da comida. Imaginar-me numa casa de Verão, sozinho, sem ninguém a perturbar a minha ataraxia, longe de todos. 
  Voar para uma casa no campo no norte de Portugal. Ouvir os pássaros na rua, a chilrearem, enquanto a comida brota das minhas mãos de escrita.



  Entrar no futuro, imaginar-me a entrar em casa depois do trabalho. Ver uma cozinha cheia de rosas, crisântemos e gerânios. Cheirá-los até ao interior de mim. Deixar entrar esse aroma e viver o vento a entrar pela janela. Tirar a roupa do dia e ser livre. Olhar para os relatórios e decidir que o melhor é cozinhar. Temperar a comida como se não houvesse mais vida do que o tempero. Fazer chá de erva cidreira e beber como se me quisesse embriagar de calma. Sentir os pés a pedirem música acústica e ligar o rádio… Sorrir para o meu amor e dar-lhe um beijo na testa. Festejar a vida e a união dentro de uma cozinha cheia de essência.
  Voltar ao Verão passado. Sentar-me no terraço de casa, colocar uma cadeira lá fora. Pegar n’Os Miseráveis e entrar num outro mundo. Ser conduzido por Victor Hugo pelos meandros da França do século XIX. Respirar fundo e esquecer-me dos outros. Entrar em casa só à hora de jantar, com a alma embriagada de romances e de histórias.
  Reviver o dia de ontem na minha imaginação. Beijar o sol que me queima o corpo na totalidade. Entrar na água fria, cheio de medo. Sair dez minutos depois por não querer mais o frio. Ler em voz alta um livro sobre um médico alemão a passar férias na Itália. Comprar batatas fritas e devorá-las com sofreguidão. Correr para o autocarro a falar sobre o futuro. Entrar no autocarro com vontade de partir para nunca mais me voltar. Deixar que o vento entre em mim. Sentir-me um turista no meu país. Ser levado a viver nos subúrbios desta cidade. Ver o sol a fugir por entre as árvores que me parecem acenar do outro lado da rua.
  Beber champanhe gelado no topo da torre Eiffel. Passar os dias a falar Francês e a comer deliciosos bolos nos cafés típicos. Imaginar-me a percorrer os boulevards e a cantar dentro de mim a Marselhesa. Sair do meu canto e perder-me nos lugares de que falou Victor Hugo. Recordar a vila de infância enquanto passo ao lado de restaurantes atolados de homens e mulheres de negócios.



  Voltar a casa. Entrar dentro da casa, cheirar os lençóis de linho, ver a comida da mamã e reviver. Sentir a essência refluir a mim mesmo. Ver o terraço onde tantas horas passava a ler no Verão e sentar-me lá. Ficar sozinho na noite, a ser engolido pelo matagal e pelas cores do céu.
  Viver em paz. Regressar a mim. Sentir o Verão a tocar-me nos nervos. Ser queimado pelo fogo do sol. Mergulhar no rio do ser. Ver aqueles que me eram amigos. Olhar para as luzes que se refletem nos vidros. Ser feliz e desejar que o Verão me seja.

(PS: Criei uma página para o meu blog no Facebook. Cliquem aqui. Obrigado pela vossa atenção!)

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Ode à Noite

Evasão


  A porta da varanda está entreaberta. O ar fresco e leve da noite convida-me a entrar no ambiente noturno como se me encaminhasse para um percurso errático, de exploração profunda da minha psique. Sento-me na cadeira que está na rua e dou por mim a fumar um cigarro. 
  O fumo esvai-se, atraído pela lua, cuja luz radiante e majestosa se arrasta nas sujas lajes do pavimento e me recorda de que estou sozinho na noite.
  Os prédios em redor parecem formar paredes que delimitam um claustro constituído unicamente pelo pátio reles da vizinha. A luz da cidade é tão banal e útil que me sinto acometido de uma vontade de me revoltar contra o mundo capitalista e burguês em que ainda vivemos.


  Que vontade de ser como as nuvens, de me colorir com as cores do céu, de dançar com a vida de quem as contempla, de ter matizes laranja num tom negro ou matizes negras no laranja do céu! Rodopiar na flutuação do ser, sair de mim e entrar no céu desvairado e aterrorizador. Ser-me e não me ser, entrar no ar fresco e esquecer-me, enfim, do ar pesado e abafado onde me enfio nos meus afazeres. Os afazeres de uma vida que, contra mim mesmo, é guiada pela maldita Utilidade. E, ao mesmo tempo, é guiada por mim pelo mais alto Espiritualismo que sinto finalmente nesta noite de agradável brisa fresca.
  Não penso em nada na varanda. Penso, talvez, em ti, Cesário. Ou em Baudelaire, quem sabe… Penso no que terás sentido, estando preso dentro de uma uniformidade burguesa. Sendo tu um burguês que se queria outrar e não o conseguia fazer. Sendo tu o deambulador, o flâneur de Lisboa. Aquela Lisboa onde tu te perdias, onde vias os magasins e onde o céu baixo e de neblina te dava desejos de sofrer. O incómodo que sentias e a verve que tinhas! Ó Cesário, como também eu gostaria de ser um flâneur, de me imiscuir na vida citadina, de ver as varinas opulentas, de sonhar com Paris e Madrid ao ouvir o barulho dos veículos… Mas não sou.
   Não sou porque me sou. E agora sou toda a noite. Toda a noite cheia de estrelas que não vejo. Sou toda a noite cheia de nuvens que pairam apenas à direita dos meus olhos, adquirindo tons alaranjados no meio de um céu negro esverdeado. Sou as luzes reles do passeio. E as paredes cor-de-rosa daquela casa restaurada. Sou-me a noite, como se me erguesse da minha funda Altivez.
 E sinto um desejo de gritar, de libertar tudo o que sinto, de deixar sair as putrefações do meu corpo, que morre e renasce e renasce e morre. Um desejo de entrar pela Noite dentro, de a ser! Uma vontade de fugir do quarto abafado onde me espera Camilo Pessanha e entrar no universo da fantasia, sem quê nem porquê! Saltar da varanda e cair nas estrelas que daqui não vejo, pois que vivo numa gaiola de utilidades! Entrar finalmente em mim e ser como o canto da ave: livre. 

  Mas não entro na Noite, nem salto da varanda. Deixo-me estar sentado, a imaginar o fumo do fumo, a sentir-me um opiário convalescente... Deixo-me estar aqui a imaginar os boqueirões citadinos onde os seres humanos se fecham e se enlouquecem… Deixo-me aqui no meu dia a dia de afazeres úteis, no meu dia a dia de aulas de Francês e de Literatura… Imagino o ir-me, mas fico pelo permanecer-me.
  E não é tão bom fugir ficando? Ó racionalidade, és verdadeiramente tudo…




"O Sentimento dum Ocidental"


 I

Avé-Maria

    Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

    O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

    Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!"
(...)

Cesário Verde





sábado, 6 de maio de 2017

Ab imo pectore


Nuditas 


  Face branca de pureza e genuinidade. Lábios carnudos como uma explosão de prazer e raiva. Cabelo escuro da força da terra, do cheiro da vida. Mãos suaves como uma jarra de flores. Corpo esguio e magro de planta flexível, cuja seiva flui continuamente. Sentado numa cadeira, a contemplar o céu de tons arroxeados e alaranjados a partir do terraço, sento-me e recordo-me como se fosse penetrado por uma acutilante sensação do passado por resolver.
  Como esquecer os dias de pânico e angústia quando se é criança? Como esquecer o medo dos colegas, as palavras cruéis que eles gritam ao verem alguém que sabem ser diferente? Como não sentir uma dor pelos nervos dentro quando as palavras brutais e ferozes nos atropelavam quando éramos crianças? Como não sentir o desespero na pele quando te pontapeavam ou te pregavam uma partida? Como esquecer a chaga que ficou, que permanece, que nunca sarou e nunca há de sarar? A infância é sempre um período belo porque distante. Ela não é bela. Ela só é bela para quem tem sorte. Uns nascem fadados para a dor, para a sagração completa pelo sangue e pelo suor, para os ataques nervosos aos 6 anos e para as lágrimas da incompreensão e da frustração. Quem foi, afinal, uma criança feliz? Eu não. Traçaram-me esta vida de dores, de nervos; esta vida de uma sensibilidade cruel, acutilante e poética.
  Desejaria nunca mais voltar a ser “eu”, a viver aqueles tempos de infância. Os dias em que não percebia o porquê de tanta indignação por parte de um conjunto de fedelhos para comigo, os dias em que me sentia apedrejado de olhares e de comentários por apenas existir. Ajo e sou. Não aceito críticas à minha plenitude. Nunca aceitei. Nunca aceitarei. Ergui-me e construí-me completamente. Ignorei tudo quanto vinha na minha direção e aprendi com os sábios conselhos da mãe, cuja força bruta me entrou na corrente sanguínea. Fui eu até ao fim quando era criança. Esgotei-me completamente no “eu”-criança porque era para isso que estava destinado. Incorporei-me até ao fim de mim mesmo e ignorei quem me apedrejava. Nunca mereci o que me fizeram, mas haverá maneira de pagar aquilo que as dores me deram?
  E os momentos de revolta, de descoberta e de incompreensão quando me soube adolescente? Como compreender o meu corpo, os meus desejos, o meu íntimo, as minhas escolhas? Como me afirmar até ao fim, com a seiva do ser, com a força de viver? Como chegar à conclusão mágica de quem eu era? Porque eu sou-me realmente e nunca me soube ser outro. Como me desmascarar perante mim? Como ficar nu perante o mundo, que me cobria de patadas e de ciladas? Despi-me, enfim, e fui-me até ao fim mais uma vez. Inspirei o ar coberto de tons róseos e atirei-me para a relva de onde me cresci. Enfrentei tudo até ao fim, sem derramar uma lágrima, sem um gemido de dor. Implacável comigo fui, até me ter preenchido por completo, longe do que os outros dizem ou fazem.


"Pela arte, onde se tem necessidade de tempo, não seria nada mau viver mais uma vida." Vincent Van Gogh



  E aqueles dias ao sol, em que o som me preenchia por completo, e eu me sentia prestes a desmaiar de suor e nervos? Aqueles dias de adaptação difícil, de incompreensão, de sensação de desconforto? Eu, ali, no meio de tantos outros. A fazer som como nunca o fizera na vida. A escutar os trombones e os trompetes enquanto as minhas tripas se revolviam de medo de falhar o compasso ou de não marchar bem. E a minha vontade de fugir, de gritar, de sair dali e de deixar os meus nervos acalmarem? E os momentos de incompreensão, de pânico, de falta de vontade, de turbilhões de pensamentos? Oh, eu nunca os esquecerei! Vivi-os até ao fim de mim. Senti-os dentro do meu coração como nunca ninguém os havia sentido. Aquele som dos pés nas calçadas, o calor das mãos que matraqueavam o saxofone e o meu instinto de me fugir pesam tanto na minha alma e nas minhas mãos tão magras e que já seguraram um ser tão poderoso que nem sequer se corrompe. Fui-me novamente. Bebi o vinho da solidão e dos nervos até me ter esquecido de que o bebia. Habituei-me a bebê-lo como se bebesse sumo de fruta natural.
  Toda a minha vida foi de momentos de desespero, de cansaço, de choro interior que nunca saiu pelos meus olhos… Toda uma vida perdida em perfecionismos, em zonas de conforto, em momentos de frustração e de esperança. Uma vida de momentos de inconstância, de revolta e de vómitos maquilhada numa vida bela e fabulosa. Uma vida mascarada que se despegou – felizmente – de mim.
  Tantos dias de sorrisos forçados e de ansiedades horrorosas culminaram em quem me sou verdadeiramente. Utilizei todas as patadas que me deram, todos os comentários mesquinhos que teceram, todas as vezes que me criticaram e que me disseram que não podia ser como eles para ser o que sou. Sou-me. Sou-me e quero que o resto do mundo vá para o caralho que o foda. SOU-ME ATÉ AO FIM, COM TODAS AS CHAGAS, CONQUISTAS E VERDADES QUE ADQUIRI. Serei eu mesmo até sempre e afirmar-me-ei, na dor ou na euforia, a todos quantos me aparecerem.