domingo, 2 de julho de 2017

Espírito de Verão


  A Memória de (me) Imaginar

  Pegar nos tachos, nas colheres e nos pratos. Agarrar uma cebola, picá-la bem picadinha para lhe sugar a essência minutos mais tarde. Selecionar a quantidade de massa necessária para o jantar. Colocar o tacho da massa ao lume, cheio de água e sal. Fazer um refugado com a cebola já cortada, adicionar azeite e polpa de tomate. Abrir a lata de atum à pressa, como se o tempo me fugisse das mãos, e fazer deslizar o conteúdo daquela lata para dentro do tacho onde o refugado prontamente o esperava.
  Acabar de cozer a massa. Sentir o vapor queimar-me as mãos e aquecer-me o espírito. Abrir a porta da varanda para deixar entrar o ar.
  Parar.
  E sentir o vento. O vento que me envolve e embala, enquanto a música me explode nos ouvidos e sinto as minhas pernas a dançar enquanto vou tratando da comida. Imaginar-me numa casa de Verão, sozinho, sem ninguém a perturbar a minha ataraxia, longe de todos. 
  Voar para uma casa no campo no norte de Portugal. Ouvir os pássaros na rua, a chilrearem, enquanto a comida brota das minhas mãos de escrita.



  Entrar no futuro, imaginar-me a entrar em casa depois do trabalho. Ver uma cozinha cheia de rosas, crisântemos e gerânios. Cheirá-los até ao interior de mim. Deixar entrar esse aroma e viver o vento a entrar pela janela. Tirar a roupa do dia e ser livre. Olhar para os relatórios e decidir que o melhor é cozinhar. Temperar a comida como se não houvesse mais vida do que o tempero. Fazer chá de erva cidreira e beber como se me quisesse embriagar de calma. Sentir os pés a pedirem música acústica e ligar o rádio… Sorrir para o meu amor e dar-lhe um beijo na testa. Festejar a vida e a união dentro de uma cozinha cheia de essência.
  Voltar ao Verão passado. Sentar-me no terraço de casa, colocar uma cadeira lá fora. Pegar n’Os Miseráveis e entrar num outro mundo. Ser conduzido por Victor Hugo pelos meandros da França do século XIX. Respirar fundo e esquecer-me dos outros. Entrar em casa só à hora de jantar, com a alma embriagada de romances e de histórias.
  Reviver o dia de ontem na minha imaginação. Beijar o sol que me queima o corpo na totalidade. Entrar na água fria, cheio de medo. Sair dez minutos depois por não querer mais o frio. Ler em voz alta um livro sobre um médico alemão a passar férias na Itália. Comprar batatas fritas e devorá-las com sofreguidão. Correr para o autocarro a falar sobre o futuro. Entrar no autocarro com vontade de partir para nunca mais me voltar. Deixar que o vento entre em mim. Sentir-me um turista no meu país. Ser levado a viver nos subúrbios desta cidade. Ver o sol a fugir por entre as árvores que me parecem acenar do outro lado da rua.
  Beber champanhe gelado no topo da torre Eiffel. Passar os dias a falar Francês e a comer deliciosos bolos nos cafés típicos. Imaginar-me a percorrer os boulevards e a cantar dentro de mim a Marselhesa. Sair do meu canto e perder-me nos lugares de que falou Victor Hugo. Recordar a vila de infância enquanto passo ao lado de restaurantes atolados de homens e mulheres de negócios.



  Voltar a casa. Entrar dentro da casa, cheirar os lençóis de linho, ver a comida da mamã e reviver. Sentir a essência refluir a mim mesmo. Ver o terraço onde tantas horas passava a ler no Verão e sentar-me lá. Ficar sozinho na noite, a ser engolido pelo matagal e pelas cores do céu.
  Viver em paz. Regressar a mim. Sentir o Verão a tocar-me nos nervos. Ser queimado pelo fogo do sol. Mergulhar no rio do ser. Ver aqueles que me eram amigos. Olhar para as luzes que se refletem nos vidros. Ser feliz e desejar que o Verão me seja.

(PS: Criei uma página para o meu blog no Facebook. Cliquem aqui. Obrigado pela vossa atenção!)

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Ode à Noite

Evasão


  A porta da varanda está entreaberta. O ar fresco e leve da noite convida-me a entrar no ambiente noturno como se me encaminhasse para um percurso errático, de exploração profunda da minha psique. Sento-me na cadeira que está na rua e dou por mim a fumar um cigarro. 
  O fumo esvai-se, atraído pela lua, cuja luz radiante e majestosa se arrasta nas sujas lajes do pavimento e me recorda de que estou sozinho na noite.
  Os prédios em redor parecem formar paredes que delimitam um claustro constituído unicamente pelo pátio reles da vizinha. A luz da cidade é tão banal e útil que me sinto acometido de uma vontade de me revoltar contra o mundo capitalista e burguês em que ainda vivemos.


  Que vontade de ser como as nuvens, de me colorir com as cores do céu, de dançar com a vida de quem as contempla, de ter matizes laranja num tom negro ou matizes negras no laranja do céu! Rodopiar na flutuação do ser, sair de mim e entrar no céu desvairado e aterrorizador. Ser-me e não me ser, entrar no ar fresco e esquecer-me, enfim, do ar pesado e abafado onde me enfio nos meus afazeres. Os afazeres de uma vida que, contra mim mesmo, é guiada pela maldita Utilidade. E, ao mesmo tempo, é guiada por mim pelo mais alto Espiritualismo que sinto finalmente nesta noite de agradável brisa fresca.
  Não penso em nada na varanda. Penso, talvez, em ti, Cesário. Ou em Baudelaire, quem sabe… Penso no que terás sentido, estando preso dentro de uma uniformidade burguesa. Sendo tu um burguês que se queria outrar e não o conseguia fazer. Sendo tu o deambulador, o flâneur de Lisboa. Aquela Lisboa onde tu te perdias, onde vias os magasins e onde o céu baixo e de neblina te dava desejos de sofrer. O incómodo que sentias e a verve que tinhas! Ó Cesário, como também eu gostaria de ser um flâneur, de me imiscuir na vida citadina, de ver as varinas opulentas, de sonhar com Paris e Madrid ao ouvir o barulho dos veículos… Mas não sou.
   Não sou porque me sou. E agora sou toda a noite. Toda a noite cheia de estrelas que não vejo. Sou toda a noite cheia de nuvens que pairam apenas à direita dos meus olhos, adquirindo tons alaranjados no meio de um céu negro esverdeado. Sou as luzes reles do passeio. E as paredes cor-de-rosa daquela casa restaurada. Sou-me a noite, como se me erguesse da minha funda Altivez.
 E sinto um desejo de gritar, de libertar tudo o que sinto, de deixar sair as putrefações do meu corpo, que morre e renasce e renasce e morre. Um desejo de entrar pela Noite dentro, de a ser! Uma vontade de fugir do quarto abafado onde me espera Camilo Pessanha e entrar no universo da fantasia, sem quê nem porquê! Saltar da varanda e cair nas estrelas que daqui não vejo, pois que vivo numa gaiola de utilidades! Entrar finalmente em mim e ser como o canto da ave: livre. 

  Mas não entro na Noite, nem salto da varanda. Deixo-me estar sentado, a imaginar o fumo do fumo, a sentir-me um opiário convalescente... Deixo-me estar aqui a imaginar os boqueirões citadinos onde os seres humanos se fecham e se enlouquecem… Deixo-me aqui no meu dia a dia de afazeres úteis, no meu dia a dia de aulas de Francês e de Literatura… Imagino o ir-me, mas fico pelo permanecer-me.
  E não é tão bom fugir ficando? Ó racionalidade, és verdadeiramente tudo…




"O Sentimento dum Ocidental"


 I

Avé-Maria

    Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

    O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

    Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!"
(...)

Cesário Verde





sábado, 6 de maio de 2017

Ab imo pectore


Nuditas 


  Face branca de pureza e genuinidade. Lábios carnudos como uma explosão de prazer e raiva. Cabelo escuro da força da terra, do cheiro da vida. Mãos suaves como uma jarra de flores. Corpo esguio e magro de planta flexível, cuja seiva flui continuamente. Sentado numa cadeira, a contemplar o céu de tons arroxeados e alaranjados a partir do terraço, sento-me e recordo-me como se fosse penetrado por uma acutilante sensação do passado por resolver.
  Como esquecer os dias de pânico e angústia quando se é criança? Como esquecer o medo dos colegas, as palavras cruéis que eles gritam ao verem alguém que sabem ser diferente? Como não sentir uma dor pelos nervos dentro quando as palavras brutais e ferozes nos atropelavam quando éramos crianças? Como não sentir o desespero na pele quando te pontapeavam ou te pregavam uma partida? Como esquecer a chaga que ficou, que permanece, que nunca sarou e nunca há de sarar? A infância é sempre um período belo porque distante. Ela não é bela. Ela só é bela para quem tem sorte. Uns nascem fadados para a dor, para a sagração completa pelo sangue e pelo suor, para os ataques nervosos aos 6 anos e para as lágrimas da incompreensão e da frustração. Quem foi, afinal, uma criança feliz? Eu não. Traçaram-me esta vida de dores, de nervos; esta vida de uma sensibilidade cruel, acutilante e poética.
  Desejaria nunca mais voltar a ser “eu”, a viver aqueles tempos de infância. Os dias em que não percebia o porquê de tanta indignação por parte de um conjunto de fedelhos para comigo, os dias em que me sentia apedrejado de olhares e de comentários por apenas existir. Ajo e sou. Não aceito críticas à minha plenitude. Nunca aceitei. Nunca aceitarei. Ergui-me e construí-me completamente. Ignorei tudo quanto vinha na minha direção e aprendi com os sábios conselhos da mãe, cuja força bruta me entrou na corrente sanguínea. Fui eu até ao fim quando era criança. Esgotei-me completamente no “eu”-criança porque era para isso que estava destinado. Incorporei-me até ao fim de mim mesmo e ignorei quem me apedrejava. Nunca mereci o que me fizeram, mas haverá maneira de pagar aquilo que as dores me deram?
  E os momentos de revolta, de descoberta e de incompreensão quando me soube adolescente? Como compreender o meu corpo, os meus desejos, o meu íntimo, as minhas escolhas? Como me afirmar até ao fim, com a seiva do ser, com a força de viver? Como chegar à conclusão mágica de quem eu era? Porque eu sou-me realmente e nunca me soube ser outro. Como me desmascarar perante mim? Como ficar nu perante o mundo, que me cobria de patadas e de ciladas? Despi-me, enfim, e fui-me até ao fim mais uma vez. Inspirei o ar coberto de tons róseos e atirei-me para a relva de onde me cresci. Enfrentei tudo até ao fim, sem derramar uma lágrima, sem um gemido de dor. Implacável comigo fui, até me ter preenchido por completo, longe do que os outros dizem ou fazem.


"Pela arte, onde se tem necessidade de tempo, não seria nada mau viver mais uma vida." Vincent Van Gogh



  E aqueles dias ao sol, em que o som me preenchia por completo, e eu me sentia prestes a desmaiar de suor e nervos? Aqueles dias de adaptação difícil, de incompreensão, de sensação de desconforto? Eu, ali, no meio de tantos outros. A fazer som como nunca o fizera na vida. A escutar os trombones e os trompetes enquanto as minhas tripas se revolviam de medo de falhar o compasso ou de não marchar bem. E a minha vontade de fugir, de gritar, de sair dali e de deixar os meus nervos acalmarem? E os momentos de incompreensão, de pânico, de falta de vontade, de turbilhões de pensamentos? Oh, eu nunca os esquecerei! Vivi-os até ao fim de mim. Senti-os dentro do meu coração como nunca ninguém os havia sentido. Aquele som dos pés nas calçadas, o calor das mãos que matraqueavam o saxofone e o meu instinto de me fugir pesam tanto na minha alma e nas minhas mãos tão magras e que já seguraram um ser tão poderoso que nem sequer se corrompe. Fui-me novamente. Bebi o vinho da solidão e dos nervos até me ter esquecido de que o bebia. Habituei-me a bebê-lo como se bebesse sumo de fruta natural.
  Toda a minha vida foi de momentos de desespero, de cansaço, de choro interior que nunca saiu pelos meus olhos… Toda uma vida perdida em perfecionismos, em zonas de conforto, em momentos de frustração e de esperança. Uma vida de momentos de inconstância, de revolta e de vómitos maquilhada numa vida bela e fabulosa. Uma vida mascarada que se despegou – felizmente – de mim.
  Tantos dias de sorrisos forçados e de ansiedades horrorosas culminaram em quem me sou verdadeiramente. Utilizei todas as patadas que me deram, todos os comentários mesquinhos que teceram, todas as vezes que me criticaram e que me disseram que não podia ser como eles para ser o que sou. Sou-me. Sou-me e quero que o resto do mundo vá para o caralho que o foda. SOU-ME ATÉ AO FIM, COM TODAS AS CHAGAS, CONQUISTAS E VERDADES QUE ADQUIRI. Serei eu mesmo até sempre e afirmar-me-ei, na dor ou na euforia, a todos quantos me aparecerem.







sábado, 8 de abril de 2017

Corredores



  Uma casa com um grande corredor, onde os meus passos se perdem. Salões que se cruzam e entrecruzam como num sonho em série. Sinto-me a cheirar as flores nos vasos, olho o sol que rebenta as janelas, visto-me com uma força ancestral que não sei de onde vem. Toco os mármores das estátuas com estas mãos finas, cheias de força espiritual e maduras de escrita. Estas mãos que tremem, que se animam, que me doem e que me são até ao fim. Com estas mãos me crio, me reinvento e me choro. Choro-me até à ponta dos dedos e cristalizo-me nesta mão magra, comprida, de dedos finos.
  A camisola às riscas ajusta-se-me ao busto e torna-me versátil. Flexível. As calças pretas fazem-me sentir estas pernas que me seguram, que me puxam para a frente como se nunca pudesse fazer outra coisa. Quem me impele a seguir? As botas devolvem-me o ser, a personalidade, ao mostrarem-me estes pés que arquejam, que querem descanso, mas nunca o pedem.
  Estou à frente de um espelho. Como? Apenas sei que estou e que me vejo. Vejo esta face, estes olhos escuros dilatados, que tanto veem. Sentirão eles o que veem? Vejo este nariz grande e estes lábios carnudos, a estalarem de vermelhidão, a mostrar a força bruta! A seiva que de mim sai!
  Mas quem está atrás daquela testa? Debaixo daquelas roupas? Dentro daquele corpo alto, delgado, talvez elegante? Quem me habita e me sai pelos olhos fora? Quem me sai dos lábios como um sopro de vento a dobrar as ramagens de uma floresta cerrada?



  O espelho não responde. Era bom que me desse a resposta ao que tanto quero saber. Mas que quero eu saber? Que quero eu sentir? Como me afirmo? Me imponho? Me sou? Como é que consigo evoluir? Quem me faz ser? Tantas perguntas e, no entanto, parece que as respostas não chegam.
  Sistemas filosóficos atrás de sistemas filosóficos. Páginas atrás de páginas. Livros atrás de livros. Lágrimas e mais lágrimas. Suor a escorrer por todo o corpo. Sangue a sair-me das mãos e, no entanto, onde está a maldita solução do enigma? A solução que me fará ir embora todas estas assombrações, estes pensamentos que me penetram, estas dores que me ferem!!!! Onde?
  Ah, como este espelho me cansou! O meu cansaço já era tão grande, mas este espelho abalou-me. Porque não consigo eu mergulhar o meu nariz nas rosas perfumadas do jardim sem conseguir estar sossegado? Porque não posso escutar estes discos que ocupam a minha secretária sem pensar? Porque não consigo sentir o sabor do açúcar nos meus lábios sem pensar em algo? Porque penso? Porque sou? Porque ME sou?
  Olho para a minha infância, para todo o meu passado, para tudo o que senti e tento completar-me. Quero entender-me como um puzzle. Quero escrever-me como uma história com princípio, meio e fim. Mas não sei se consigo. Tantas regras de psicologia - serão elas científicas? - invento para mim e para os outros. Tento perceber porque ME sou, mas a verdade é que não me percebo!
  Sou os livros que li, as imagens que vi e todos aqueles que por mim passaram, MAS NÃO SOU SÓ ISSO! NÃO SOU NEM POSSO SER! O que sou? De onde sai a energia de mim? De onde me saio? Quem construiu o espírito que passa por mim nos momentos de me ser? Quem me diz como reagir? Quem me faz pensar?
  Desenrolo-me em questões como se elas fossem as respostas. Quero dar-me as respostas. Quero encontrá-las e, todavia, nunca as encontrarei. Escrevo isto para dar um sentido a estes pensamentos caóticos e turbulentos que me ocorrem, mas não dou sentido a nada. Não sei que sentido tenho, mas sei que me sou.
  Sou-me... Sinto-me longe da ataraxia helénica tantas vezes! Será porque não consigo deixar de me ligar, de me vincular, de me intrometer na faceta mais banal da vida? Racionalizo-me todo como uma equação de segundo grau. Para quê? Isso não ME É. Penso-me até ao íntimo de mim mesmo para ver se consigo organizar-me, se consigo dar-me uma orientação, mas não dou... Mas será que eu me quero dar uma orientação qualquer? Uma postura neste mundo?
  Sou-me humano porque sinto, porque penso, porque me preocupo com tudo o que me é e não me é. Sou-me humano até à flor de mim, até ao mais profundo da minha alma, até aos meus nervos que sinto ranger com uma força tão aguda... Sou-me humano até ao fim. Quero eu a ataraxia? A paz? A calma? Entrar na espera tranquila e resolver-me?
  NÃO. Sou humano e a ataraxia não me é. É-me poucas vezes, pelo que não entra na flor de mim... Naquela flor que desabrocha e se reflete nos meus lábios vermelhos de sangue. O que quero eu? O que quero eu, verdadeiramente?
  Não sei o que quero. Mas sei o que pretendo neste momento. Não me abandono. Não me saio e não fujo. Mas mergulho-me.
  Corro pela estrada fora, passo pelas casas da classe média, vejo as árvores que me seguem, o sol que me queima e me faz arquejar até ali chegar. Chego, enfim, ao rio. Não é o Letes. É O rio. Aquele onde entro nu, como se nunca tivesse estado coberto por roupas. O meu corpo avança em direção à água e ela penetra-me os poros, acaricia-me o cabelo, lava-me a face e retira a cor dos meus lábios. Os olhos não são mais do que dois vidros onde a água embate. A minha cara é o meu escudo. As minhas mãos são a espada que se sagra, enfim, em nome de si e do ser a que pertence. As minhas pernas motorizam-me os movimentos enquanto se sentem renascer na pureza do rio. O meu peito esquece-se do ar para passar a respirar a limpidez. Todo o meu corpo se entrega ao rio, como a uma doce canção de embalar. Todo eu me sinto respirar, enfim. Respiro como se nunca o houvesse feito! RESPIRO-ME.
  Agora que me deito na erva batida pelos raios solares, sinto-me, finalmente, renascido das cinzas. Encontrei-me com o anterior a mim. Encontrei-me com a luz que me é; que nos é. Mas tenho de voltar ao ponto de onde parti, porque me sou humano. Quem te disse a ti - petit enfant - que a ataraxia é uma verdade? Apenas a genuinidade...



  "E é como se através da multidão dos séculos eu ouvisse o tropear de todos os povos da Terra caminhando comigo, cantando o sonho da sua amargura milenária. Gente estropiada, escarros de humilhação, e a fome, e o remorso, e o cansaço, e a loucura que emerge como um incêndio na noite, e a lepra, e a angústia da interrogação, velhos da idade do sofrimento, gente que espera, gente que sonha... De que abismos esta mensagem? A montanha vibra na sua massa branca ao apelo da ansiedade. Vozes de longe, cantando, cantando." Vergílio Ferreira, in "Aparição"












quarta-feira, 8 de março de 2017

"Je est un autre"

No Canto do Olho

  Saio de casa e mergulho na escuridão doce da noite. Eu, amante dos dias repletos de luz e de calor, troco a claridade matinal pela escuridão cerrada e sinto-me dançar na brisa fresca e cortante da noite, enquanto ouço os sons desta terra adormecida. Onde estou eu? Estou em casa... Naquela que é a minha terra natal. Estou na minha verdadeira pátria, aquela a que sempre recorro nos meus momentos de cansaço, de tristeza, de solidão, de desespero. Naquela pátria com a qual sonho quando não tenho sonhos e na pátria que me corrói quando os meus sonhos sabem que não têm lugar ali. Finalmente, encontramo-nos. Eu e tu, minha querida terra. Tu e eu, minha amada noite.
  Oiço os meus passos à medida que vou caminhando. A estrada ainda está ligeiramente molhada, pelo que o ruído das minhas botas não passa despercebido naquele momento. Continuo a caminhar no meio de uma estrada escura, estreita e ladeada por silvas e árvores, tentando, talvez em vão, encontrar uma luz suficientemente forte que ofusque os leves pensamentos que vão emergindo à tona do meu cérebro.



  De repente, tenho de virar à esquerda. Ou será melhor ir para a direita? Não, ir para a direita não vale a pena. Hoje, vou para a esquerda. Entrei no passeio do lado esquerdo e então senti a luz a preencher a escuridão das ruas, mas ela não me preencheu a consciência. Não fez isso de maneira alguma...
  Estou a tentar esquecer que tenho um caos instalado na minha mente quando alguém passa por mim. Não sei quem é. Não quero saber.
  Depois, passa outra pessoa por mim. Quem é? Ok, não interessa...
  Aí vem mais uma... Será que esta cara me é familiar?
  Ali à frente vejo mais duas figuras humanas. A cara delas está totalmente consumida pela sombra. Vale a pena tentar descortinar de quem são aqueles rostos?
  Todas estas pessoas, que eu nem sequer sei quem são, passaram por mim. Passaram por mim e continuaram a sua marcha. Será que elas vão para a direita hoje? Ou decidiram seguir a esquerda? Não sei e talvez não interesse.
  Continuo o meu percurso, mas decido, não sei porquê, olhar ligeiramente para trás e ver as pessoas que ainda há pouco passaram por mim. Pelo canto do olho, vejo-as a seguirem os seus caminhos, sem pensarem em mim. Sem pensarem no que eu penso ou no que eu sou. Elas seguem e eu sigo. Eu sigo para o outro lado. Será que elas não veem o que eu vejo?
  Vejo realmente que aquelas pessoas que me aparecem no canto do olho são as pessoas que eu sou e que eu poderia ter sido. Cruzo-me com elas e sei que só não estou no lugar delas porque me é impossível escolher todos os caminhos ao mesmo tempo. Vejo todas as pessoas que eu não quero ser agora, mas que eu quis ser no passado. Contemplo aqueles que eu ainda quero ser. Observo atentamente aqueles que quererei ser. Mas continuo.
  Continuo e, enfim, parece que sou eu o que seguiu para o outro lado. Talvez tenha achado este percurso mais pitoresco? Não sei... Não sei nada disso, mas sei que o caminho dos outros não é o meu. E só não é meu porque hoje decidi que não era o meu. Amanhã, talvez até já seja o meu, mas, agora, não é nem pode ser.
  Dobro vezes sem conta aquela esquina. Não aquela de que falei há pouco, mas a eterna, a verdadeira esquina e penso sempre "devo ir pela direita ou pela esquerda"? Será que todos refletem antes de escolherem o seu caminho? Talvez o façam... Talvez ninguém o faça. Talvez eu pense que o faço porque me habituei a iludir-me através do pensamento.
  Verdadeiramente penso, repenso, olho e volto a olhar. Conto e reconto na minha cabeça a quantidade de vezes que quis ser aqueles que vejo pelo canto do olho. Recordo-me das vezes em que pensei neste caminho que estou a seguir nesta noite sombria. Houve realmente um momento em que pensei em seguir este caminho? Ou tê-lo-ei feito como ente determinado e limitado? Nasci para este percurso? Não sei se as pedras no meu caminho mo sabem dizer... Oh! Como é difícil perceber...
  Parece que o meu caminho não tem fim, mas não é verdade. Estaquei à frente do restaurante onde devo entrar. Acho que se cruzaram mais pessoas no meu caminho... Porque é que não posso fugir dali, ir ter com aqueles que me são e que eu sou sem saber e viver? Viver como verdadeira energia pura, sem limitações. Agora não dá, vem aí alguém... Já me viram. Entrego-me à negra vida de sempre...
 - Ainda bem que chegaste! Estava a ver que não! Vamos entrar!!